quinta-feira, novembro 22, 2012

Lisboa no Censos 2011


A população residente em Portugal, à data do momento censitário (21 de Março de 2011) era de 10 562 178 pessoas, das quais 5 046 600 são homens e 5 515 578 são mulheres, de acordo com os resultados definitivos dos Censos 2011.

A população
O crescimento de 2% da população (206 061 pessoas) verificado nos últimos dez anos deveu-se predominantemente a um saldo migratório positivo de 188 652, uma vez que o saldo natural (número de nascimentos menos o número de óbitos) contribuiu com apenas 17 409 pessoas para este crescimento.

Onde reside a população
A Região do Alentejo voltou a perder população (cerca de 2,5%, ou seja 19 283 pessoas) face a 2001, bem como a Região Centro. A Região Norte manteve praticamente a população que tinha na última década. Apresentaram saldo positivo a Região do Algarve (+14%), as RA dos Açores (+2%) e da Madeira (9%) e a Região de Lisboa (+6%). Mais de 80% da população residente concentrava-se em 3 regiões do país: Norte (34,9%), Lisboa (26,7%) e Centro (22,0%).

Desertificação no interior do país aumentou na última década; 50% da população residente concentra-se em 33 dos 308 municípios do país.

Dos 10 Municípios mais populosos do país, 6 localizam-se na Região de Lisboa e 4 na Região Norte
Em 2011, o grupo dos 10 municípios mais populosos alterou-se ligeiramente, em relação a 2001: Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia e Porto mantiveram-se nas quatro primeiras posições.

Indicadores demográficos
Percentagem de jovens recuou para 15% e de idosos cresceu para 19%.
A estrutura etária da população acentuou os desequilíbrios já evidenciados na década passada.
Idade média da população aumentou 3 anos numa década: é agora de 41,8 anos. A idade média da população residente aumentou, na última década, cerca de 3 anos, tendo-se fixado nos 41,8 anos. A idade média das mulheres (43,2 anos) é superior à dos homens, (40,3 anos).

Índice de envelhecimento
Em 2011, o índice de envelhecimento da população era de 128, o que significa que por cada 100 jovens existiam 128 idosos.

Índice de longevidade
O índice de longevidade, que relaciona a população com 75 ou mais anos com o total da população idosa com 65 ou mais anos era, em 2011, de 48, face a 41 em 2001 e 39 em 1991. Em termos regionais, Lisboa apresentou o índice mais baixo (46 anos).

População de nacionalidade estrangeira
À data da realização dos Censos 2011, residiam em Portugal 394 496 pessoas de nacionalidade estrangeira, o que representava cerca de 3,7% do total da população.
A maior comunidade estrangeira residente em Portugal era a brasileira, com 109 787 pessoas (cerca de 28%), seguindo-se a cabo-verdiana, com 38 895 (10%). A comunidade ucraniana era a terceira mais representada em Portugal, com 9%, surgindo a angolana em 4º lugar.

População estrangeira mais jovem do que a portuguesa
A população estrangeira era, em 2011, bastante mais jovem do que a portuguesa, com uma idade média de 34,2 anos, face a 42,1 da portuguesa.
A Região de Lisboa concentrava mais de metade dos estrangeiros a viver em Portugal.

Estado civil e conjugalidade
Embora em 2011 as uniões conjugais continuassem a ser maioritariamente formalizadas através do casamento (87%), as uniões de facto já representavam cerca de 13% do total face a 7% em 2001.
Em Lisboa as uniões de facto representam cerca de 20% das uniões conjugais.

Nível de escolaridade
Na última década, o país registou progressos muito significativos em todos os níveis de ensino.
O número de diplomados quase duplicado e atingido 1 244 742, 60% dos quais mulheres; A população com 15 ou mais anos com pelo menos o 9º ano aumenta para 50%, sendo 38% em 2001; A taxa de analfabetismo recuou de 9% em 2001 para 5,2% em 2011.
Na Região de Lisboa residiam 21% das/os diplomadas/os do país.



quarta-feira, novembro 21, 2012

Os Restauradores


Situada entre o Rossio e o extremo Sul da Avenida da Liberdade, a Praça dos Restauradores tem ao centro um obelisco de 30 metros que celebra a Restauração da Independência de Portugal do domínio dos Filipes em 1 de Dezembro de 1640 - efeméride que agora passou à história no calendário dos feriados nacionais. O monumento foi inaugurado em 28 de Abril de 1886 e o seu custo, 45 contos de reis, foi obtido por subscrição pública em Portugal e no Brasil. Na atualidade, a placa central da Praça tem calçada portuguesa desenhada por João Abel Manta.
A Praça, que abriu caminho à expansão de Lisboa para Norte, é um ponto de passagem. Mas isso não retira importância à monumentalidade de algumas das edificações que a demarcam. Em primeiro lugar, o Palácio Foz, começado a construir em 1755. Antes de ser uma repartição pública, o Palácio exibia uma decoração interior magnífica e mobiliário de grande esplendor. Ali funcionou nos tempos mais recuados do século passado o Maxim’s, dancing muito frequentado e animado. Vizinho do Palácio foi o Éden-Teatro, integrando os salões Central e Foz. Do outro lado da Praça existiu o cinema Condes, hoje transformado num Hard-Rock Café.
 
Hoje, a Praça é uma Babel de gente apressada e de mirones.
Os primeiros vão para a estação do Rossio, para o Metro ou para a Loja do Cidadão; os segundos andam por ali a ver se cai alguma coisa do céu. Também há turistas.
E esplanadas para os turistas.
E no extremo Sul da Praça ergue-se majestoso o Avenida Palace, com mais passado que presente.
 


Belarmino, fotografia de Augusto Cabrita,
para o filme de Fernando Lopes
Em tempos, à porta do Éden, parava habitualmente Belarmino Fragoso, na sua fase de engraxador de sapatos. Disse dele Baptista-Bastos, no guião do filme Belarmino, de Fernando Lopes: “Se Belarmino tivesse vivido noutro país, talvez fosse um grande campeão”.
E acrescentou Alexandre O'Neill: "Belarmino // quando ao tapete nos levar // a mofina, // tu ficarás sem murro, // eu ficarei sem rima, // pugilista e poeta, campeões com jeito // e amadores da má vida".

Texto e fotos de Beco das Barrelas / Direitos reservados.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Ei-los que partem...


Já foram donos do mar
Vão para terras de França.
Manuel Alegre
 
Mais de 600 mil pessoas deixaram o País desde o início da crise, em 2008.  A Secretaria de Estado das Comunidades estima que tenham abandonado o País no ano passado 100 mil a 120 mil portugueses. E nos primeiros nove meses deste ano emigraram perto de 30 mil. A emigração em Portugal em 2011 aproximou-se da registada nos anos 60 e 70 do século passado.
Além dos destinos tradicionais como França, destacam-se agora outros países como Angola, Brasil e Inglaterra. A par da construção civil, que continua a ser um dos sectores de maior trabalho para os emigrantes, o país tem assistido a uma nova vaga de emigração entre os jovens licenciados. Mas a notícia mais dolorosa vem num relatório da Comissão Europeia e revela que há crianças portuguesas a emigrar para trabalhar na União Europeia.
O coordenador do Observatório da Emigração observou recentemente que “pela primeira vez, a necessidade de emigração chegou a grupos sociais com maior qualidade de vida, mais acesso a informação, maior influência e, por isso, passou a ser um problema público”.
Esta é a dura realidade do Portugal atual: um país bom para fugir daqui para fora. As estatísticas demográficas olham contra os governos: Portugal está mais pobre, mais velho, mais despovoado e desertificado, mais estagnado, mais desempregado, mais precário, menos fecundo.
Comentou, e bem, o ex-secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, que «alguma coisa tem de estar muito mal neste Pais» para que tantos portugueses emigrem.
Em Lisboa, na estação de Santa Apolónia, a estátua da autoria de Dorita Castel-Branco em homenagem Ao Emigrante Português, inaugurada em 1981, deixa de ser uma alusão ao passado. A emigração voltou à ordem dos dias em Portugal. Ei-los que partem
 

Virão um dia, ou não...

"Muitos emigrantes portugueses estão a “desistir do país” e a pedir a naturalização nos países de destino. Em 2010, quase cinco mil portugueses pediram nacionalidade francesa. Na Suíça, foram 2200 os portugueses a tornaram-se naturais daquele país. No mesmo ano, no Luxemburgo houve 1345 emigrantes portugueses que adquiriram dupla nacionalidade."
do jornal Público.
Texto e fotos de Beco das Barrelas / Direitos reservados.
 

quinta-feira, novembro 15, 2012

Bacalhau continua a reinar na R. do Arsenal


Já foi o “fiel amigo”, também foi o "bacalhau a pataco", prometido em eleições, o peixe seco das 100 maneiras de o cozinhar, que hoje serão talvez mil, o peixe que comido fresco é uma raridade. Come-se cozido com todos, assado com batata a murro, guisado de caldeirada com muito tomate e pimento, come-se frito, come-se cru bem temperado. Também se come disfarçado com natas ou em pataniscas. E não haverá nada que vá à mesa e de que os portugueses mais falta sintam que do bacalhau.
Já foi um produto pescado por portugueses, em longas e penosas campanhas de seis meses nos mares da Terra Nova. Agora vem da Noruega e compra-se congelado mas, para quem queira, também o há salgado e com vários tipos e qualidades de cura.
Antigamente, o bacalhau para o lisboeta era um produto típico da Rua do Arsenal. Hoje restam duas casas na rua mas há outras na Praça da Figueira e o bacalhau não falta nos supermercados. Mas o Rei do Bacalhau continua a imperar na Rua do Arsenal, com grande variedade de espécies e de dimensões. Só o bacalhau de cura amarela ainda está para chegar à casa de Santos Ramalho Ldª.
De resto, é só escolher: dos expositores para o alguidar a demolhar, dali para o fogão e a seguir para a mesa. E bom proveito.
 
Texto de fotos Beco das Barrelas / Direitos reservados

terça-feira, novembro 13, 2012

A primeira greve em Portugal foi em Lisboa em 1849

Nos números 13 e 14 do Conde Barão funcionou a empresa
que resultou da fusão, em 1929, das fábricas Collares e Vulcano.
A primeira greve em Portugal aconteceu em Setembro de 1849, em Lisboa, envolvendo quatro fábricas de fundição e serralharia industrial situadas Nas imediações da Rua da Boavista e do Largo do Conde Barão. Ter-se-ão verificado anteriores conflitos laborais mas a primeira greve, que tecnicamente merece esse nome, foi a de 1849.
Os operários das fábricas José Pedro Collares e Filhos, Phenix, Vulcano e João Bachelay, todas elas situadas na zona industrial localizada entre o Tejo, a Rua da Boavista e o Largo do Conde Barão, fizeram greve em luta contra…
o serão.
Naqueles tempos, o horário de trabalho compreendia um serão no Outono e Inverno, quando os dias eram mais curtos. Os operários exigiam trabalhar apenas de sol a sol, todo ano, sem diminuição de salário pelo facto de não trabalharem ao serão.
O analista social José Barreto * conta que, “na tarde do dia 10 de Setembro, uma segunda-feira, várias dezenas de ferreiros, serralheiros e torneiros da fábrica Vulcano abandonaram o trabalho à hora do começo do serão, recusando-se a trabalhar até às 8 da noite. Foram para a rua e percorreram o caminho até à fábrica Phenix gritando que não faziam serão e chamando os seus colegas que ainda se encontravam a trabalhar.” Os operários das duas fábricas juntaram-se a caminho das outras duas. Mas, os patrões destas - Collares e Filhos e Bachelay - tinham entretanto chamado a Polícia para dispersar os manifestantes. Naquele dia as coisas ficaram por ali. Mas no dia 11 de Setembro, ao tocarem as Trindades, as fábricas ficaram desertas, sem ninguém para fazer serão.
No local há vestígios de arqueologia industrial.
A primeira notícia sobre o casdo saiu no jornal Revolução de Setembro no dia 12. O jornal explicava que os operários se recusavam a fazer serão e pretendiam o pagamento por inteiro como se trabalhassem as horas que trabalhavam de Verão. Por sinal, os tipógrafos que compunham este jornal vieram a protagonizar a segunda greve registada em Portugal.
A greve prosseguiu e o trabalho só foi retomado quando os patrões das quatro fábricas se comprometeram a satisfazer as reivindicações dos grevistas, o que aconteceu a 20 de Setembro. O Patriota transcrevia nas suas páginas o regulamento interno das fábricas que, no dizer do jornal, era, “com pouca diferença, o que os próprios operários pediam”. Mas em 1872, os metalúrgicos lisboetas voltaram a lutar contra os serões que, entretanto, tinham sido restabelecidos.
* José Barreto, in Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.°-4.°, 479-503. Ler aqui

Texto e fotos Beco das Barrelas / Direitos reservados

Janelas: os olhos da cara da cidade



Av. da Liberdade, prédio onde nasceu
o pintor Carlos Botelho
Tenho quarenta janelas, // nas paredes do meu quarto, // sem vidros nem bambinelas, // posso ver através delas, // o mundo em que me reparto (…) Oh janelas do meu quarto,// quem vos pudesse rasgar, // com tanta janela aberta, //  falta-me a luz e o ar.//
António Gedeão
 
Alfama
Na janela mais alta de Lisboa, // és a ave chamada Todavia: // a que posta no céu não se desvia, // mas que perto do rio já não voa...
David Mourão-Ferreira

 



Cemitério dos Prazeres
Janelas do meu quarto, // Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é // (E se soubessem quem é, o que saberiam?), // Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, // Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, // Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, // Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, // Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, // Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Álvaro de Campos

 
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores:
há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada,
e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver
se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê
quando se abre a janela.
    Alberto Caeiro

Texto e fotos Beco das Barrelas /Direitos reservados

segunda-feira, novembro 12, 2012

Todos os santos e mais um


Trinta das atuais 53 freguesias de Lisboa têm nomes de santos. Na toponímia da cidade, 217 avenidas, ruas, calçadas, travessas, praças e largos, escadinhas, becos, pátios e azinhagas têm nomes de santos, do Santíssimo, de freis, padres e madres e dos mais simples dos Fiéis-de-Deus. Mas nenhum santo tem o culto diário, a devoção quotidiana, discreta mas reconhecida, como aquela que se manifesta diariamente junto ao monumento ao Dr. Sousa Martins, no Campo dos Mártires da Pátria. Em vida foi um santo homem, um médico bondoso, dedicado ao tratamento dos pobres, um clínico dotado de uma capacidade rara, naquele tempo, para apontar o diagnóstico certo e encontrar o tratamento mais adequado.
Nascido em Alhandra em 7 de Março de 1843, José Thomaz de Sousa Martins veio para Lisboa no fim da instrução primária, recolhido por um tio materno após a morte do pai, fez o curso liceal e, mais tarde, frequentou os cursos de medicina e de farmácia. O tio era proprietário da Farmácia Ultramarina, na Rua de São Paulo, o que teve influência nas escolhas do jovem. Sousa Martins licenciou-se em Farmácia com 21 anos e em Medicina com 23. Aos 33 anos foi convidado para reger a cátedra de Patologia na Escola Médica.
Sousa Martins tornou-se rapidamente reconhecido com médico dos pobres e dos mais desprotegidos perante a terrível doença da época que era a tuberculose. E foi do contágio pelos seus doentes que veio a sofrer da mesma doença que eles. Como médico, padecendo de uma doença que ao tempo dificilmente tinha cura, Sousa Martins morreu em 18 de Agosto de 1897, depois de se ter injetado com uma dose letal de morfina.
Sete anos após a sua morte, foi erguida no Campo dos Mártires da Pátria, em frente da Escola Médica, a estátua do médico Sousa Martins, a 7 de Abril de 1904. Outros monumentos evocativos de Sousa Martins foram levantados em Alhandra e na Guarda, onde em 1918 foi construído o Sanatório com o nome do clínico.
O culto de Sousa Martins nascera em vida do médico mas, após a morte, assumiu outra dimensão e sentido. José Thomaz de Sousa Martins era, para além de médico e farmacêutico, espírita, o que poderá estimular as iniciativas no sentido de o procurar contactar além-túmulo, mais de um século após a sua morte, e obter do infinito a cura de males que afligem os doentes e suas famílias.
A devoção em torno do Dr. Sousa Martins enche o espaço em redor do seu monumento em Lisboa de ex-votos, placas de mármore com agradecimentos por graças recebidas, velas acesas, flores. O médico é venerado como um santo. Mas a Igreja Católica abjura o culto em torno do Sousa Martins, praticante do espiritismo e suicida.

Guerra Junqueiro disse a respeito do Dr. Sousa Martins:
 Eminente homem que radiou amor, encanto, esperança, alegria e generosidade,
Foi amigo, carinhoso e dedicado dos pobres e dos poetas,
A sua mão guiou. O seu coração perdoou, A sua boca ensinou.
Honrou a medicina portuguesa e todos os que nele procuraram cura para os seus males.”

Texto e fotos Beco das Barrelas / Direitos reservados.

sábado, novembro 10, 2012

il Fado


18 fados de Lisboa
O fado é português e é universal, património imaterial da Humanidade.
As suas raízes são objeto de constante estudo e descoberta. Mas para cantá-lo é preciso ter mais alguma coisa que voz: é preciso uma identidade e um sentimento.

Já todos ouvimos tentativas melhor ou pior conseguidas de cantores estrangeiros ensaiando esse difícil exercício de cantar o fado - o João Braga diz “cantar ao fado”. Em 2001, por iniciativa do guitarrista italiano Marco Poeta, juntaram-se os cantores Francesco Di Giacomo (tenor), Elisa Ridolfi e Eugenio Finardi. E da iniciativa saiu um disco com 18 faixas de fados e guitarradas. Marco Poeta é um extraordinário guitarrista que conhece Lisboa, os ambientes do fado e a guitarra portuguesa. Di Giacomo também esteve em Lisboa, estudou os poetas e canta o fado na língua de Luís de Camões. Finardi canta-o na língua de Dante Alighieri. É uma curiosa experiência.

Eugenio Finardi na atualidade
disco dos anos rebeldes
Eugenio Finardi tem atualmente 60 anos, é natural de Milão, é cantor, autor e compositor, guitarrista e pianista. Fez carreira a partir dos anos 70, inicialmente muito ligado ao grupo Area, depois como cantor e autor de rock’n’roll e jazz rock. As letras das suas canções refletiam um espírito rebelde e o idealismo daquela geração. No final da década de 70 esteve em Lisboa para atuar na Festa do Avante, no Vale do Jamor.

O disco Fado é uma homenagem de grandes músicos italianos a Lisboa e ao fascínio do Fado Lisboeta (Carlos Dias e Amadeu do Vale). Avaliem Eugenio Finardi e apreciem o virtuosismo do guitarrista Marco Poeta.

sexta-feira, novembro 09, 2012

Mouraria vence a marcha do Orçamento Participativo


Projetos para o bairro da Mouraria foram novamente os vencedores da votação para o Orçamento Participativo de Lisboa, conseguindo as duas propostas mais votadas, uma em cada categoria: A Casa da Mobilidade da Mouraria reuniu 1729 votos e receberá um orçamento que ronda os 150 mil euros; o Centro de Inovação da Mouraria, a proposta mais votada entre todas, com 2608 votos, receberá cerca de 400 mil euros.
Os munícipes de Lisboa, na quinta edição do Orçamento Participativo, selecionaram 15 dos 231 projetos candidatos. A participação através da internet foi a maior de sempre - apesar da redução do orçamento para metade -, recolhendo votos de 30 mil munícipes que escolheram os projetos que vão receber apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
Em função das escolhas dos munícipes de Lisboa, o Largo da Graça e a Rua Voz do Operário serão alvos de requalificação; enquanto a Rua de Campolide foi distinguida com um estudo de ordenamento viário e o Vale do Silêncio, nos Olivais, com uma parede de escalada. No âmbito do desporto, foi também aprovado um rocódromo indoor e a construção de campos de basquetebol em frente à zona ribeirinha.
Entre outros projetos aprovados no âmbito do Orçamento Participativo contam-se o passeio em frente à Casa-Museu Amália Rodrigues, na Rua de S. Bento, que irá ter a assinatura da fadista sobre calçada portuguesa cor-de-rosa. Em local ainda a estudar, será erguido um monumento em honra do cantor Zeca Afonso.
No momento da divulgação dos resultados do escrutínio, que decorreu entre 17 de Setembro e o final do mês passado, a vereadora da Câmara de Lisboa que detém o pelouro da Modernização Administrativa revelou que o canil/gatil aprovado na 2ª edição, em 2009, deverá estar concluído durante o primeiro semestre do próximo ano.
 
Ler também
Participativo presente

Texto João Francisco. Fotos Francisco João / Direitos reservados.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Para cima todos os ascensores ajudam

Santa Justa
não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal.
mas tens o dia todo à luz do dia. não faz mal.
Vasco Graça Moura

Já houve tempos em que se ia de ascensor do Camões à Estrela. O projeto foi inaugurado em 15 de Agosto de 1890 e a ideia era chegar, para além da Estrela, à Rua do Bencasados, hoje Rua Silva Carvalho. Mas o ascensor fez a última viagem em 1913 sem passar além da Estrela.
Lavra
Hoje, no sistema de transportes públicos, há três ascensores e um elevador. Distinguem-se porque os primeiros funcionam em plano inclinado e os segundos viajam na vertical.
O mais antigo é o ascensor do Lavra, inaugurado a 19 de Abril de 1884, ligando o Largo da Anunciada ao Torel. Seguiu-se o ascensor da Glória, inaugurado em 24 de Outubro de 1885, ligando os Restauradores a São Pedro de Alcântara. Veio depois o ascensor da Bica, em 1892, subindo de S. Paulo ao Bairro Alto. O elevador de Santa Justa, o mais novo da família, foi inaugurado em 10 de Julho de 1902, subindo 32 metros na vertical da Baixa até ao Largo do Carmo.  
Nem sempre foram seguras as viagens, como são hoje. Em 1916, quando se assentava um dos carros sobre os carris da Bica, a carruagem veio por ali abaixo, espatifando-se a ela e à estação da Rua de S. Paulo. Só voltou a funcionar sete anos mais tarde.
Glória
Mas não há nada mais indicado para a Cidade das Sete Colinas que estes funiculares - com tração mecânica e elétrica - que trepam da Baixa e de S. Paulo ao Bairro Alto, do Largo da Anunciada ao Torel mais o elevador que sobe a pique até ao Carmo e à Trindade.
O preço dos bilhetes é que é um exagero: No Lavra pagam-se 3 euros e 50 cêntimos por uma subida de um minuto: viaja-se a 210 euros à hora!
Mas lá onde chegam os ascensores e o elevador, Lisboa é até onde a vista alcança.

Aqui na Bica tenho o Tejo à janela e o elevador à porta.
António Alçada Baptista 

    Texto e fotos Becos das Barrelas / Direitos reservados.

terça-feira, novembro 06, 2012

O Bairro que é Alto 24 horas por dia


Eu mudei, fiquei mais velho, mas o bairro também mudou. Já não tem a inocência daquela época. Aquele lado efervescente das esquinas, dos cafés e dos jornais, para mim, era uma coisa diária. Era vida.
Dinis Machado, entrevista à revista Ler, Outono de 2002

Em quase 500 anos de história, o Bairro Alto já foi muita coisa: a quinta do cirurgião judeu Guedelha Palaçano, a Vila Nova de Andrade, o Bairro Alto de São Roque. Mas mesmo quando albergava palácios que lhe davam um tom aristocrático, o Bairro Alto foi sempre popular, boémio e artístico.
Diário de Lisboa
Desde meados de século XIX ao último quartel do século XX, foi também o Bairro dos jornais. Desse tempo, restam no Bairro as ruas do Século e do Diário de Notícias - o primeiro acabou, o segundo mudou-se. E resta a redação do jornal A Bola. Nos tempos do Bairro dos jornais, estes fechavam tarde, traziam as críticas de teatro e de cinema na manhã seguinte à estreia. E os jornalistas e outros colaboradores saiam para jantar e voltavam para fechar a edição.
Luso
Antes e durante parte dessa época, o Bairro Alto foi o centro do fado, da boémia, da prostituição. Do fado ficaram 10 casas de turismo e diversas tascas de fado vadio. A prostituição deixou memória no livro “O vício em Lisboa”, de Fernando Schwalbach: “Porta da rua, um pequeno balcão ocupando metade dessa porta; a tapar a vista para o interior, um pano branco a servir de cortina, e que de noite, com a luz do candeeiro de petróleo, nos dá a ilusão de um animatógrafo”. Quando em 1963 os bordéis foram ilegalizados e encerrados, haveria em Portugal 5.276 prostitutas e 485 casas de passe legalizadas.
Frágil
A nova boémia do Bairro Alto organizou-se a partir dos anos 80 do século passado e o bar e discoteca Frágil ficou como um ícone das longas noites de Lisboa. Hoje haverá dezenas de bares em certas ruas do Bairro, muitos dos quais não passam de uma porta e um balcão. Beber, bebe-se na rua. A moda também assentou arraiais no Bairro. Fátima Lopes será o nome mais conhecido dos ateliês e lojas instalados no Bairro Alto. Come-se bem no Bairro Alto. E não é só no Pap’Açorda. É também no Farta Brutos, no 1º de Maio, na Tasca do Manel e em muitos outros restaurantes e tascas. 
Hospital de S. Louis


Palácio e Museu Maçónico
Para além disso o Bairro alberga o Conservatório Nacional há 175 anos. Há 152 anos instalou-se no Bairro Alto o Hospital de S. Louis dos Franceses, onde morreu Fernando Pessoa, em 1935. E no Bairro Alto funciona, em edifício próprio, o Palácio Maçónico e o Museu da Maçonaria - com exceção do período de tempo do fascismo em que a Maçonaria foi ilegalizada e as instalações ocupadas pela Legião Portuguesa.
 
Com tudo isto e mais a população residente, o Bairro Alto vive 24 horas por dia. Diga-se que para desespero de boa parte dos residentes que não se conforma com o barulho das luzes e tudo o que fica pelas ruas depois de uma noitada.
 


E claro está que o Bairro tem música.


    Texto e fotos Becos das Barrelas / Direitos reservados.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Bairro Alto: Lisboa pré-pombalina


O Bairro Alto comemora em 15 de Dezembro 499 anos. E à beira de celebrar meio milénio, a antiga Vila Nova de Andrade, depois Bairro Alto de São Roque, é ainda um bom exemplo da arquitetura da cidade de Lisboa, antes e depois do terramoto de 1755. Foi um dos primeiros bairros em toda a Europa a ser construído em quadrícula, por ordem de D. Manuel I, o que o levou a resistir de algum modo ao terramoto, e em seu redor já estão os sinais da arquitetura pombalina.
O Bairro cresceu e existe dentro de uma esquadria definida a Sul pelo Calhariz, o Loreto e o Camões, a Norte pela Rua D. Pedro V, a Leste pela Rua da Misericórdia e por S. Pedro de Alcântara, e a Oeste pela Rua do Século. Mas dentro desta esquadria, a quadrícula é algo irregular, mais parecendo uma malha, que coincide com um desenvolvimento a dois tempos do Bairro Alto: numa primeira fase até à Travessa da Queimada e depois para Norte até à rua D. Pedro V.
Das grandes longitudinais, só a Rua da Rosa atravessa todo o Bairro, do Calhariz à D. Pedro V. As ruas das Gáveas e a do Norte vão do Camões à Travessa da Queimada; a Rua do Diário de Notícias passa a Queimada mas começa na Rua das Salgadeiras e acaba na Travessa da Cara; a Rua da Barroca também começa nas Salgadeiras e fica-se pela Travessa da Queimada. A Rua da Atalaia sobe do Loreto, ultrapassa as outras longitudinais mas termina na esquina com a Calçada do Tijolo. Vem depois a Rua da Rosa, que atravessa todo o Bairro. A Rua Luz Soriano começa já na Calçada do Combro mas fica-se pela Calçada do Cabra; a Rua dos Caetanos não vai além da Travessa das Mercês e da dos Inglesinhos; as ruas da Boaventura e da Vinha saem da Calçada do Cabra e terminam na Travessa do Conde Soure; onde termina também a Rua Nova do Loureiro que principia na Travessa dos Inglesinhos. As transversais completam a malha do Bairro, com um desenho ainda mais entrecortado: Salgadeiras, Mercês, Espera, Fiéis de Deus, Poço da Cidade, Inglesinhos e Queimada, Grémio Lusitano, Calçada do Cabra, travessas da Água da Flor, da Boa Hora, da Cara, do Tijolo e de S. Pedro. Entre as travessas da Cara e S. Pedro passam as breves ruas da Teixeira e dos Mouros. A Sul, entre as travessas dos Fiéis de Deus e das Mercês fica a Rua do Trombeta.
É este o Bairro Alto, onde moradores vivem o dia-a-dia - queixando-se do ruído e do lixo da noite - e forasteiros passam o noite-a-noite. Desde o século XVIII que o Bairro Alto é local de boémia e de fado; nos anos 80 do século XX passou a ser o centro da movida noturna.
 
E como não podia deixar de ser, o Bairro Alto tem o Fado. E mais Fado.

Texto e fotos Becos das Barrelas / Direitos reservados.

sexta-feira, novembro 02, 2012

A Maternidade fechará pelo Natal?


A Maternidade Alfredo da Costa nasceu em Dezembro de 1932 mas talvez morra antes de completar os 80 anos. O Governo considera que há um “excesso de oferta” nesta área e decidiu fechar uma unidade de qualidade e excelência da rede de cuidados de saúde pública materno-infantil.
A Maternidade tem o nome do Dr. Alfredo da Costa, nascido a meio do século XIX na Índia e falecido no ano da implantação da República, em Lisboa. Professor de Obstetrícia na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, foi diretor, da Enfermaria-Maternidade no Hospital de São José e é considerado o percursor da moderna assistência materno-infantil. Alfredo da Costa não chegou a ver realizado o seu sonho, a construção de uma maternidade de raiz, o que por razões administrativas e financeiras só veio a acontecer 22 anos após a sua morte.
No primeiro mês de atividade, em Dezembro de 1932, a Maternidade Alfredo da Costa efetuou 96 partos. O estabelecimento foi dimensionado para fazer seis mil partos por ano mas chegou a duplicar este número. Em cada família de Lisboa há possivelmente alguém nascido na Maternidade Alfredo da Costa, o estabelecimento para onde foram com frequência transferidas parturientes - até de clínicas privadas - se o parto ameaçava correr mal.
Agora a Maternidade Alfredo da Costa vai fechar para que, como aconteceu com muitas outras maternidades que fecharam em Portugal, mais crianças nasçam a bordo de ambulâncias a caminho de Loures, Cascais ou Vila Franca de Xira. E como o Governo quer por força fechar a Alfredo da Costa antes do fim do ano poderia, simbolicamente, encerrar a Maternidade no Dia de Natal.

Quando eu nasci, //não houve nada de novo // senão eu. // As nuvens não se espantaram, // não enlouqueceu ninguém... // Para que o dia fosse enorme, // bastava // toda a ternura que olhava // nos olhos de minha mãe.”
Sebastião da Gama, Pequeno poema
  Texto e fotos Becos das Barrelas / Direitos reservados.