
«Hoje, dia 10 de Junho de 2015, fui agraciado com o
grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago da Espada, a mais antiga ordem
honorífica de Portugal, usada para distinguir o mérito literário, científico e
artístico de cidadãos portugueses.
«Perante a responsabilidade que representa a aceitação
de tal reconhecimento, enquanto português e enquanto artista, foi inevitável
questionar-me sobre a legitimidade e o fundamento desta distinção. Após a
surpresa inicial e após um longo debate interno, decidi, com humildade,
aceitá-la. Faço-o por respeito à sua longa história assim como pelo orgulho que
sinto em passar a fazer, modestamente, parte da História do meu país. Faço-o
como um gesto patriótico para com o país que estimo e que fez de mim a pessoa
que sou hoje.
«Aceito esta distinção para dar voz a um
país onde a educação e a formação cultural são valorizadas. Um país onde cada
jovem é visto como um bem e uma oportunidade digna de investimento e não como
um problema. Um país que acredita na arte e no seu enorme poder como educador
social.
«Aceito esta distinção em nome de um país inclusivo e
acolhedor. Um país solidário. Um país heterogéneo, composto por pessoas com
raízes e origens em outros cantos do mundo. Um país que acredita e promove a
participação cívica e política dos seus cidadãos.
«Aceito esta distinção como reconhecimento do meu
trabalho e aquele da minha equipa, como prova de que vale a pena resistir
contra a condescendência e o tipo de mentalidade que nos tenta convencer que
somos pequenos.
«Aceito-a, ironicamente, numa altura em que a nova lei
que estabelece o regime aplicável aos grafitos e outras formas de alteração de
superfícies no espaço público, introduz o conceito de “picotagem”, dando-lhe
especial relevo no contexto desta regulamentação. Uma lei que não foi alvo de
discussão pública e que não soube envolver os vários actores que visa
contemplar.
«Por fim, aceito esta distinção porque acredito que
este país que descrevo já existe na vontade das pessoas e que um dia, através
do nosso esforço, será materializado.
«Um profundo e sentido obrigado a todas as pessoas que
têm apoiado o desenvolvimento do meu trabalho ao longo dos anos.

«A todas as periferias deste país, a todos aqueles que
não tiveram as mesmas oportunidades, a todos aqueles que são menosprezados, à
primeira crew de Lisboa, ao Seixal, à Arrentela, à luta do Bairro de Santa
Filomena, à Quinta do Mocho, ao Bairro Verde, à comunidade indígena de Araçaí,
ao Morro da Providência, à Ladeira dos Tabajaras. Esta honra é também vossa.»
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