quarta-feira, julho 02, 2014

SOPHIA E LISBOA

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen
Fotos Beco das Barrelas / D.R. 


BECO DAS BARRELAS: 
DOIS ANOS NA BLOGOSFERA

Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Olá, cá estamos nós. 

Este é um blogue para quem ama Lisboa.

Vamos encontrar-nos. Aqui. 
Até já!



terça-feira, junho 17, 2014

Mas o Tejo é sempre novo...


No dia 16 de Junho, pelas duas da tarde, quando o Sol ardia em Lisboa, embora não tanto como na véspera, mas mais que no dia seguinte, uma cortina de neblina descia sobre o Tejo toldando o horizonte e remetendo a paisagem mais longe para os domínios do encoberto. 
Talvez fosse simplesmente o augúrio dos dias mais frios e molhados que agora se anunciam; talvez fosse apenas pelo facto de o Tejo ser, com efeito, sempre novo, todos os dias e a todas as horas diferente. 

Texto João Francisco
Foto de Joana Francisca
Beco das Barrelas / D.R. 

segunda-feira, junho 16, 2014

Sai um prato de gastrópodes para a mesa do canto

Os caracóis – cochleolus como lhe chamavam os latinos - são gastrópodes da subordem dos stylommatophora que têm, entre outras, a grande virtude de não fugirem nem darem o alarme. Num livro recente, o escritor chileno Luís Sepúlveda diz mesmo que os caracóis, «para que lentidão e o silêncio não os assustassem, preferiam nem falar disso e aceitavam ser como eram com uma lenta e silenciosa resignação».

De maneira que, pelo facto de transportarem não a casa, como se diz erradamente, mas o esqueleto às costas, se torna possível capturar uma imensa quantidade destes moluscos, cozinhá-los e servi-los à mesa na época respectiva, o Verão.
O caracol é um herbívoro que, antes do tacho, passa por uma dieta de vinho branco e ervas aromáticas, o que o transforma num pitéu apropriado para acompanhar cerveja gelada, a bebida mais eficaz no combate ao calor e à sede estivais, ou vinho branco.
Os franceses cozinham as caracoletas, às quais chamam escargots à bourguignone, mas em Portugal os mais procurados são os caracóis miúdos, os caracóis caracolitos, cozinhados longamente no tacho com azeite, alho, cebola, louro, orégãos, temperados após a cozedura com sal e pimenta. As ervas e temperos em excesso – ou desapropriados, como os caldos de carne – apenas acrescentam mais sal e disfarçam o sabor verdadeiro do pequeno molusco. 

O caracol come-se no sul de Portugal e no norte de África. É um petisco simples e despretensioso que puxa pela bebida e ambos puxam pelo convívio.

Às portas de Lisboa, Loures organiza regularmente a feira do caracol saloio. Em Lisboa, o caracol é petisco comum nos dias de Verão e tem algumas casas especializadas como sejam: Júlio dos Caracóis, uma grande superfície do caracol, em Chelas, Grã Via, no Campo Grande, Adega do Rossio, na Rua 1º de Dezembro, A Tabuense, na Avenida do Brasil, A Palmeira, na Rua do Crucifixo. 
Se tem outras sugestões, deixe-as aqui, clicando ao fundo em sem comentários


Mais comidinhas aqui:

O Mercado senta-se à mesa










sexta-feira, junho 13, 2014

ALFAMA VENCEU 
AS MARCHAS DE 2014


A Marcha de Alfama foi a vencedora da 82ª edição das Marchas Populares de Lisboa 2014. O segundo lugar foi atribuído à Marcha de Alcântara e o terceiro à Marcha do Bairro Alto.
No Desfile das Marchas Populares na Avenida da Liberdade desfilaram este ano 20 Marchas em competição. Desfilaram ainda extra concurso as Marchas dos Mercados e do Parque das Nações, para além da Marcha Infantil da Voz do Operário. O tema deste ano foram os 400 anos da publicação da "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto.
O prémio para Melhor Coreografia e Melhor Figurino coube a Alcântara, enquanto Alfama arrecadou a Melhor Cenografia. O Prémio da Melhor Letra foi atribuído ex-aequo a Alfama, Castelo e Graça. Marvila venceu nas categorias de Melhor Musicalidade e Melhor Composição Original. Alfama ganhou também na categoria de Melhor Desfile da Avenida.
Alfama ganhou o concurso das Marchas de Lisboa pelo segundo ano consecutivo. Nos últimos dez anos, Alfama alcançou oito títulos. Alfama tem um longo historial de vitórias, para as quais muito contribuíram as 13 vitórias alcançadas pela mão do ensaiador Carlos Mendonça, conhecido como “O Mourinho das Marchas”. Mendonça mudou-se em 2011 para o Alto do Pina, e venceu dois anos consecutivos (2011 e 2012), retirando-se depois da actividade

quarta-feira, junho 11, 2014

Junto à praia do Restelo



Encomendada por D. Manuel I, construída por Francisco de Arruda, entre 1514 e 1521, localizada na margem direita do Tejo, junto à praia do Restelo, com a sua torre quadrangular, o seu baluarte poligonal e a sua decoração Manuelina, a Torre de Belém é desde 1983 Património da Humanidade.
Pode e deve ser visitada entre as 10h00 e as 18h30. Encerra às segundas-feiras.

Foto Beco das Barrelas / D.R. 

terça-feira, junho 10, 2014

10 de Junho Dia de Camões

Número 139 da Calçada de Santana, Lisboa
Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Luís Vaz de Camões, Sonetos

Foto Beco das Barrelas / D.R. 

terça-feira, junho 03, 2014

Do cotovelo da terra à pestana do mundo...

UM ACONTECIMENTO: 

33 anos após a estreia, a Companhia de Teatro A Barraca repôs a peça “Fernão Mentes?”, adaptação de Hélder Costa da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. Como então se dizia, “'Fernão Mendes Pinto somos nós'. Como agora ainda diz Hélder Costa, “Um pouco como nós todos, não é?”

Com uma nova montagem mas com o mesmo texto, baseado no monumento da literatura mundial que é a “Peregrinação”, “Fernão Mentes?” mantém a música original de José Afonso, Fausto Bordalo Dias e Orlando Costa que fez o grande espectáculo musical dos anos 80. Em cena mantêm-se dois dos actores do elenco de há 33 anos, Maria do Céu Guerra e João Maria Pinto.

espectáculo vai estar em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, de 19 a 29 de Junho, com horários às 21 e 30 e aos domingos às 18 horas, e depois n'A Barraca, em Santos. 


Grande Final: Quando às vezes ponho diante dos olhos...
Quando às vezes ponho diante dos olhos
A lusitana viagem medonha que eu dobrei
Os tormentos passados e os fados que chorei
Arde o corpo em oração entre pecado e perdão
Agonia o coração e arde o corpo
Do cotovelo da terra á pestana do mundo
Fui treze vezes cativo dezassete vendido


Mataram os mares milhares num gemido

Ai de mim sou missionário

Foge cafre já sou corsário
Marinheiro voluntário
Ai de mim...

(Fausto Bordalo Dias, Por este rio acima)

sexta-feira, maio 30, 2014

Mudos que falam, surdos que respondem

84ª edição da Feira do Livro de Lisboa
800 mil euros de investimento
250 pavilhões
537 editoras e chancelas
900 iniciativas
Um Banco dos Bens Doados, com livros, novos ou usados, para crianças 
30 espaços de restauração
Um ecrã gigante para seguir o Mundial de Futebol
Parque Eduardo VII
29 Maio a 15 de Junho, de segunda a quinta das 12h30 às 23h, às sextas até às 24h, sábados das 11h às 24h e domingos das 11h às 23h.

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.
Padre António Vieira 
O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê.
Umberto Eco
Não há livro tão mau que não tenha algo de bom.
 Dom Quixote

Ainda vale a pena comprar na Feira do Livro? 
Pergunta e responde o Jornal de Negócios. Leia aqui

sexta-feira, maio 16, 2014

Saem as sardinhas


Há uma sardinha em forma de quiosque (à esquerda), outra em forma de pasta de dentes (em baixo à direita). 
Sete sardinhas - seis apresentadas por portugueses e uma por um mexicano - venceram o concurso de criatividade lançado pela Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC).

Cerca de cinco mil participantes apresentaram sardinhas a concurso. O júri avaliou mais de 8000 propostas de sardinhas, este ano. A maioria são sardinhas portuguesas mas vieram sardinhas a concurso de Itália (301), Brasil (289), Grécia (215), Espanha (169) e até da China (13 sardinhas).
As sardinhas vencedoras vão andar por Lisboa no mês de Junho para promoção das Festas da Cidade.

Quanto às sardinhas propriamente ditas ainda há que esperar um pouco mais até que pinguem no pão. 

quinta-feira, maio 15, 2014

TOBIS or not TOBIS, eis a questão

De há uns anos para cá as políticas em Portugal acabam todas com o mesmo filme: privatiza-se. A Tobis Portuguesa, herdeira da Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros Tobis Klangfilm, foi privatizada no Outono de 2011, adquirida por investidores angolanos por sete milhões de euros, a base de licitação pela qual foi posto à venda. E agora os antigos estúdios de cinema ali estão, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, a produzir um filme mudo e parado no tempo.
A Tobis tinha 79 anos e enquanto houve cinema em Portugal – desde a Canção de Lisboa e do Pátio das Cantigas - foi ali que se fez. E assim foi até chegar ao poder uma casta política que acaba com tudo: a agricultura, as pescas, os transportes, o teatro, o cinema. É uma espécie de praga, pior que a dos escaravelhos das palmeiras ou os besouros dos pinheiros.

A Tobis foi fundada em 1932 e já neste século investiu fortemente em tecnologia para pós-produção de imagem e som. Poucos anos após esse investimento foi alienada pelo Estado.


E agora? Agora, vamos para intervalo. 


domingo, maio 04, 2014

MORAL E MURAIS DE ABRIL


Escrito a letras douradas sobre fundo preto, este mural da Calçada da Glória, da autoria do pintor Mais Menos, para a Galeria de Arte Urbana de Lisboa, regista a moral de Abril, 40 anos depois: letras douradas sobre fundo de luto. 
Quando e onde não há moral, nem todos comem. 

Fotografia de Francisco
Texto de João 

segunda-feira, abril 28, 2014

A ÚLTIMA CEIA: ELES COMEM TUDO


Nas cadeiras do poder, à mesa do Orçamento, profetas e discípulos da crise e da austeridade sem fim. 
A Liberdade defende-se, exercendo-a. 
A Última Ceia, pintura de Nomen para o Gabinete de Arte Urbana de Lisboa. 
Calçada da Glória, Abril de 2014. 
Foto de Francisco 
Texto de João

sábado, abril 26, 2014

LIBERATRIX


Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo envolto na noite que projectas...
Só o gládio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.




— «Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavaleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo... Prostro e desbarato,
Mas consolo... Subverto, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

Mors Liberatrix, Antero de Quental 

Pintura de Tinta Crua para o Gabinete de Arte Urbana de Lisboa, Calçada do Carmo, 2014
Foto Francisco
 edição João 

sexta-feira, abril 25, 2014

A LIBERDADE GUIANDO O POVO


Da mulher das barricadas para Salgueiro Maia, capitão de Abril, dos «três dias gloriosos» do povo de Paris, em Julho de 1830, para o 25 de Abril 1974 em Portugal, de Paris para a Calçada da Glória, do Louvre para a arte urbana de Lisboa, de Eugène Delacroix 
para Carlos Farinha: LIBERDADE SEMPRE
Foto Francisco 
Texto João

sexta-feira, março 28, 2014

REAPARECEU A PLACA NO PRÉDIO QUE FOI SEDE DA PIDE
















FOI REPOSTA PELA CML, NO DIA 22 DE ABRIL PASSADO, A PLACA QUE RECORDA OS MORTOS DE HÁ 40 ANOS SOB AS BALAS DISPARADAS PELOS PIDES DA JANELA DA SEDE DA POLÍCIA POLÍTICA SOBRE A MULTIDÃO.
A PLACA É IDÊNTICA À QUE DESAPARECERA. ATÉ MANTÉM O ERRO NO NOME DE UMA DAS VÍTIMAS. SEGUNDO REPORTAGEM DE MIGUEL CARVALHO NA REVISTA VISÃO, O NOME JOSÉ GUILHERME REGO ARRUDA ESTÁ ERRADO: A VÍTIMA CHAMAVA-SE JOÃO ARRUDA, ERA ESTUDANTE DE FILOSOFIA, NATURAL SE 
S. MIGUEL, AÇORES.
 Desapareceu a placa colocada na sede da antiga PIDE, na Rua António Maria Cardoso, nº 22, em Lisboa, onde agora funciona um condomínio de luxo. 
A placa tem inscritos os nomes dos quatro portugueses assassinados pela PIDE no 25 de Abril e foi colocada como homenagem de um grupo de cidadãos às únicas vítimas de um crime de sangue no dia 25 de Abril de 1974. A PIDE - que não arriscou opor-se à Revolução dos Capitães - despediu-se como existiu, matando com cobardia. Graduados da PIDE/DGS dispararam da varanda do 1º andar do edifício sobre a multidão que se manifestava na rua.
A placa original foi colocada num muro em frente da antiga sede da PIDE, por iniciativa de um grupo de cidadãos, em 1980. Veio a desaparecer, tal como a actual, e quando foi reposta mudou para local mais discreto. 

sábado, fevereiro 22, 2014

Em defesa da calçada portuguesa


Na sequência dos acontecimentos de Maio de 1968, em Paris, o poder policial-político-autárquico substituiu o pavimento do centro da cidade: os pavés (a calçada) foram soterrados em betão. E resolveu-se assim um grande problema.

Do Maio de 68 ficara uma imagem poética – como tantas outras daqueles tempos -, segundo a qual debaixo dos pavés se poderia encontrar a praia (bastava arrancar os pavés que poderiam, entretanto, ser lançados contra a polícia). O novo revestimento e a nova imagem passaram a ser muito mais duros e irremediáveis: para chegar à praia não bastaria levantar os pavés mas seria necessário, prioritariamente, remover o inamovível betão.

Parece que chegou o tempo de Lisboa remover os seus pavés – a calçada portuguesa que até há pouco era louvada como criação da cultura portuguesa exportável e universal.

Até é de crer que alguém em Lisboa esteja convencido que está a defender uma boa causa, com esta ideia peregrina de substituir parte da calçada portuguesa, pois vai assim garantir a segurança dos que já mal se equilibram nas pernas, quanto mais em calçada que cristalizou no sistema triclínico.

Mas se o poder da cidade está tão preocupado com a segurança dos munícipes que circulem na calçada, manda reparar as ruas empedradas que apresentam dificuldades à mobilidade, dando trabalho aos calceteiros, segurança às pessoas e beleza às ruas de Lisboa.

Está a correr uma petição pública contra a retirada da calçada portuguesa aprovada pela Assembleia Municipal de Lisboa. Leia, medite e se estiver de acordo assine, aqui:

 

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Amor Lisboa


(...) Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,

negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,

move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos! (...)

Amor, 

Irene Lisboa

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Retrato da cidade sem-abrigo

A cidade é um chão de palavras pisadas,
poema Cidade, de José Carlos Ary dos Santos

A cidade de Lisboa contava, em Dezembro do ano passado,  852 pessoas sem-abrigo, na sua maioria homens, portugueses, solteiros e sem fontes de rendimento, segundo um levantamento cujos resultados são hoje apresentados pela Santa Casa da Misericórdia.
Na contagem, realizada a 12 de Dezembro de 2013, foram sinalizados 509 pessoas sem-abrigo na rua e 343 que dormiram em Centros de Acolhimento nessa noite.
As freguesias de Santa Maria Maior (antigas freguesias de Mártires, Sacramento, Santa Justa, São Nicolau, Madalena, Sé, Socorro, São Lourenço, São Cristóvão, Santiago, Castelo, São Miguel e Santo Estevão) e do Parque das Nações registaram a maior concentração, com 83 pessoas cada, seguidas de Santo António (Coração de Jesus, São José e São Mamede), com 64.
Segundo a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na origem da situação de exclusão estão, na maior parte dos casos, conflitos familiares e relacionais, o desemprego e a doença física ou mental.
A grande maioria dos sem-abrigo inquiridos é homem (87%) e tem entre 35 e 54 anos (48%), seguido pelo escalão 55-64 anos (20%). A pessoa mais nova contactada tem 16 anos e a mais velha 85.
Os sem-abrigo inquiridos são maioritariamente solteiros (44,5%) e portugueses (58,4%), tendo sido registados 14,3% sem-abrigo pertencentes a outros países da União Europeia.
Quanto à educação, um terço concluiu o ensino secundário, técnico ou superior, 4,6% têm qualificações superiores e 7,7% não sabe ler nem escrever.
A grande maioria (71,8%) não tem atualmente qualquer fonte de rendimento e 68,9% recebe apoio na alimentação. Mais de 45% têm problemas de saúde.

Dos inquiridos, 54,2% dizem ter filhos, mas 36,2% não mantêm contacto em eles. Contudo, 13,8% afirmam ter contacto diário ou quase diário e 66,8% tem contactos frequentes com outros familiares.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

A poesia de Ary dos Santos não morreu há 30 anos


 
O poeta José Carlos Ary dos Santos deixou-nos há 30 anos, em 18 de Janeiro de 1984. Mas não morreu, porque a poesia não morre. E a poesia de Ary dos Santos – poeta de Lisboa e do seu povo - continua viva.



Retrato do Povo de Lisboa

É da torre mais alta do meu pranto

que eu canto este meu sangue este meu povo.

Dessa torre maior em que apenas sou grande

por me cantar de novo.
 

Cantar como quem despe a ganga da tristeza

e põe a nu a espádua da saudade

chama que nasce e cresce e morre acesa

em plena liberdade.

 
É da voz do meu povo uma criança

seminua nas docas de Lisboa

que eu ganho a minha voz

caldo verde sem esperança

laranja de humildade

amarga lança

até que a voz me doa.

 
Mas nunca se dói só quem a cantar magoa

dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria

apunhalada na garganta.

Dói-me o sangue vencido a nódoa negra

punhada no meu canto.

José Carlos Ary dos Santos, Fotosgrafias




quinta-feira, dezembro 05, 2013

Vai abrir o cinema mais antigo de Lisboa


Ou, melhor dizendo: a sala de cinema mais antiga de Lisboa, estreada em 1904 com o nome Salão Ideal, mais tarde Cine Camões, na atualidade Cine Paraíso – dedicando-se à exibição de filmes pornográficos – vai reabrir na Primavera de 2014 como Cinema Ideal. Trata-se de uma iniciativa da distribuidora Midas, de parceria com a Casa da Imprensa, proprietária da sala.

O Ideal, localizado na Rua do Loreto, ao Camões, funcionará diariamente do meio-dia à meia-noite, com programação de filmes em estreia, reposição de clássicos e sessões vocacionadas para públicos específicos. O Ideal está dotado de plateia, balcão e foyer – à boa maneira dos antigos cinemas de bairro - e está a ser equipado com projeção de som e imagem digital, nova instalação elétrica, ar condicionado.
O Ideal na fase Paraíso
do cinema porno

A ideia é recuperar o gosto de ir ao cinema. Se é que alguém ainda se lembra e em contraciclo com o galopante fecho de salas em Lisboa e no resto do País.

A tempo e a propósito fica um pensamento profundo do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo sobre cinema: “Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!”.

sábado, novembro 23, 2013

Regicídio: os King vão fechar

Último cartaz dos King
O exibidor e produtor Paulo Branco, da Medeia Filmes, prometeu esclarecer se os cinemas King encerraram ou não no domingo, 24 de Novembro de 2013.

No início de novembro, Paulo Branco tinha admitido a decisão de encerramento do cinema, por causa de uma proposta de atualização do valor da renda por parte do proprietário do espaço, prometendo porém que os 9 postos de trabalho - nove seriam garantidos.

O cinema King, que chegou a ter três salas em funcionamento, mantendo atualmente apenas duas, para exibição sobretudo de cinema de autor, é gerido desde 1990 pela exibidora Medeias Filmes, de Paulo Branco.

Além do Fonte Nova e Nimas, a Medeia Filmes detém ainda o cinema Monumental, também em Lisboa, e tem programação no Cine Estúdio Teatro do Campo Alegre, no Porto, Auditório Charlot, em Setúbal, no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, no Theatro Circo de Braga e no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.

De acordo com dados do Instituto do Cinema e Audiovisual, até Outubro a exibidora Medeia Filmes contabilizou 186.367 espectadores.

Em 2011, Paulo Branco encerrou os cinemas Saldanha Residence, que funcionavam praticamente em frente ao cinema Monumental.

Este ano, a rede de exibição de cinema em Portugal sofreu uma mudança depois da exibidora Socorama ter aberto falência, fechando algumas das salas que detinha (mais de cem) de norte a sul do país, incluindo o cinema Londres, em Lisboa. Algumas dessas salas de cinema, em particular as que estão localizadas em centros comerciais, têm estado a reabrir gradualmente por iniciativa da exibidora brasileira Orient.

 

quinta-feira, novembro 14, 2013

Voltas ao Mundo em Lisboa


Um Fernão de Magalhães com 2,63m de altura, de espada em riste, projeta-se sobre um canhão montado na amurada de um navio de pedra, procurando no horizonte os 360 graus de uma circum-navegação. O navegador está ali de bronze e expectante. Provavelmente, Magalhães interroga-se sobre o que está ali a fazer.

Fernão de Magalhães está ali na qualidade de réplica da estátua que lhe ergueram na Praça principal da cidade de Punta Arenas, nas terras de Magallanes, no extremo da Antártica Chilena. E toda a gente compreenderá o que faz naquela ponta do Mundo o circum-navegador.

Mais curiosidade levantará a localização de Fernão de Magalhães em Lisboa, no cruzamento da Avenida Almirante Reis com as ruas Morais Soares e a António Pereira Carrilho. A Praça recebeu a denominação do Chile, em homenagem à República Chilena, em 1928, e a estátua oferecida pelo Chile a Portugal lá foi implantada em 1950, vinte anos após o lançamento da primeira pedra.

E como a diplomacia e a toponímia têm razões que a razão não entende, para retribuir à República do Chile a amabilidade da oferta da estátua de Magalhães, Lisboa plantou na Avenida da Liberdade uma placa evocativa do venezuelano Simon Bolivar.

Estamos quites.

 

segunda-feira, novembro 04, 2013

Um paquete vem entrando…


O Queen Elizabeth no Porto de Lisboa
 
     Vem entrando e a manhã entra com ele, e no rio, aqui, acolá, acorda a vida marítima, erguem-se velas, avançam rebocadores, surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto. Há uma vaga brisa.
 
Ode Marítima, Álvaro de Campos
 
 
Entre Janeiro e Setembro deste ano, Lisboa recebeu a visita de 244 navios de cruzeiro, transportando 374 mil turistas.

Os números, divulgados pelo Observatório de Turismo de Lisboa, representam aumentos de mais 33 navios e 29 mil passageiros do que no mesmo período do ano passado.