segunda-feira, março 30, 2015

Descobrir Lisboa

Alice Rohrwacher, realizadora e argumentista italiana, está absolutamente na ordem dos dias com a estreia do filme “O País das Maravilhas”, sua segunda longa-metragem, já premiada pelo júri em Cannes.
E em Lisboa, onde fez o Erasmus em Grego Clássico e Filosofia, na Faculdade de Letras e um curso de cinema documental na Videoteca Municipal de Lisboa, esta realizadora de 33 anos confessa a um jornal que descobriu a luz:

"Lisboa é uma cidade que a cada dia conta uma história da luz. A morte, a sombra e a luz são os amores primogénitos do cinema se pensarmos nele como um feixe de luz que entra num buraco onde há movimento. Esse mecanismo descobri-o em Lisboa. Essa dança é mais importante que a narrativa. Eu e a Helène Louvart (directora de fotografia) tentámos que uma história de sombra e luz, que é a do cinema, atravessasse o filme. Primeiro o escuro, a luz que vai entrando na casa, os fantasmas, depois uma tentativa de criar uma materialidade - pode beber-se a luz, tocá-la com o pé... Há uma cena em que a Gelsomina (a protagonista adolescente) entra na caverna, as sombras dançam, ela toca nelas. Este amor pelo cinema é contrário ao digital e mostramo-lo sem grande cinefilia."

Com 83 anos, morreu o poeta Tomas Tranströmer, galardoado com o Nobel da Literatura em 2011.
Tranströmer foi o autor sueco mais traduzido no mundo: mais de 40 línguas.
Na sua obra poética, há um poema intitulado “Lisboa”, publicado em Portugal em 1987, na tradução de Vasco Graça Moura:

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
"Mas aqui!", disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,
"aqui estão políticos". 
Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
"será verdade ou só um sonho meu?"
Fotos Beco das Barrelas

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