domingo, dezembro 30, 2012

Saudades de Lisboa

(Entro no café de Monte Carlo. Revolução.)
Então aquela mulher desconhecida que me beijou
com boca de sol de punhal
saltou para cima da mesa
e pôs-se a cantar
José Gomes Ferreira
 
Não é saudosismo, nem revivalismo, a questão é que há sítios que desaparecem e não deixam nada que os substitua. Lisboa está sempre a mudar - e ainda bem, quando muda para melhor. Mas há lugares que desapareceram em Lisboa e nada preencheu aquele lugar vazio.
Aqui eram Os Anarquistas
Dou exemplos, para que me entendam: nada em Lisboa substituiu o restaurante Os Anarquistas, o café Monte Carlo ou o cinema Império, embora os respetivos espaços estejam ocupados.
De Os Anarquistas não encontro qualquer registo, a não ser nos escaninhos da minha memória. Ficava no Largo da Trindade, quase em frente da porta dos artistas do Teatro da Trindade. Era dirigido por dois velhotes galegos, atenciosos no serviço, mas na cozinha é que estava o segredo do pequeno e acolhedor restaurante. Era tudo bom e de confiança. O nome do restaurante era um desafio, em pleno salazarismo, mas lá foi passando. Mais tarde, já depois de Abril de 1974, o restaurante foi trespassado, mudou de nome e de género. Agora, as portas que antigamente se abril para Os Anarquistas estão emparedadas.
Aqui era o Cinema Império
O Cinema Império abriu em 1952 e com os seus 1.670 lugares, distribuídos por plateia e dois balcões, era a maior sala de cinema de Lisboa. A meio da década de 60 abriu no Império a sala Estúdio, com 245 lugares e programação mais escolhida.
Para as saudades do Cinema Império contribuiu também a companhia Teatro Moderno de Lisboa, que ali funcionou de 1961 a 1965, com sessões às 18h 30, de segunda a sexta. Fernando Gusmão e Rogério Paulo foram os grandes animadores do Teatro Moderno de Lisboa, em cujo elenco se destacaram Carmen Dolores, Ruy de Carvalho, Armando Caldas, Clara Joana, Fernanda Alves, Rui Mendes, Armando Cortez, e no qual se revelou grande ator o jovem Nicolau Breyner. As peças O Tinteiro, de Carlos Muñiz, e O Render dos Heróis, de José Cardoso Pires, ficaram inesquecíveis no reportório de uma Companhia que fazia teatro ao fim da tarde, em dias de semana, com salas cheias.
O Cinema Império é hoje a sala de cultos de uma seita religiosa. E vá lá, vá lá, que o Café Império escapou.
 
Aqui era o café Monte Carlo
O café Monte Carlo era um grande estabelecimento, com café, pastelaria, restaurante, snack-bar, bilhares, tabacaria, tudo bem dividido e demarcado, de modo que cada espaço era à medida de um confortável convívio e de boas conversas. O restaurante tinha um bife que era considerado monumento nacional e tinha a cozinha indiana como especialidade. A tabacaria era a única a vender em Lisboa as cigarrilhas Pérolas - e Manuel Vinhas deslocava-se ali expressamente para as comprar, até achar que lhe ficava mais à mão e mais em conta comprar a fábrica, nos Açores.
Para além de tudo isto, o Monte Carlo tinha entre a “mobília” da casa figuras extraordinárias da literatura e da cidadania lisboetas, clientes de todos os dias, como José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Mário Castrim, mais espaçadamente - porque as solicitações eram muitas - Manuel de Lima e Mário Alberto.
São sítios como estes que fazem a nostalgia de uma Lisboa que mudou, nem sempre para melhor.
 
Texto e fotos Beco das Barrelas. Direitos reservados.
 


 
O Monte Carlo
Post Scriptum - Depois de fotografar, sempre de viés, para apanhar toda a entrada do antigo Café Monte Carlo - hoje uma loja Zara - foi interpelado por uma funcionária do pronto a vestir espanhol - suponho eu, pois a senhora não se identificou - perguntando-me se não sabia que era proibido fotografar o interior da loja. Respondi serenamente que não fotografara nada do interior da loja, que aliás não me interessava de todo, mas apenas a entrada para um trabalho que não toinha a ver com a Zara mas com um café que ali existira. Insistiu, mais azeda e autoritária, dizendo-me que não podia fotografar na rua em frente da loja. Respondi que não lhe iria mostrar a minha carteira profissional de jornalista, porque a considerava com qualquer tipo de autoridade para me interpelar, mas que se quisesse chamar um polícia eu esperaria todo o tempo que fosse preciso para me identificar e explicar o sucedido. Virou as costas. E eu também, cada vez com mais saudades do café Monte Carlo.

3 comentários:

  1. comia-se bem nos anarquistas, em vez de cadeiras tinha bancos, o caril de camarão miudinho era optimo, o caldo verde custava 1$50 (1968-69), o monte carlo era confortavel, bom restaurante, o bife sim, o caril de tainha e outros caris, etc.
    no cinema império vi os 10 mandamentos e a morte e vida severina com chico buarque, um grupo de teatro universitário, no final apareceu no palco o joão cabral de melo neto vestido com fato preto ou cinzento escuro, 1966, entre março e maio.

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    1. No cinema Império vi a orquestra de Count Basie (com o próprio Basie ao piano). No Monumental (teatro) vi o Benny Goodman e vi o Louis Armstrong. A Morte e Vida Severina também vi, com o Chico Buarque, um desconhecido, a cantar no coro. Anos mais tarde jantei com o Chico Buarque e com o Raul Solnado no Monte Carlo. Saudades de Lisboa...

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  2. Passa pelo bar "Os Anarcas" junto á Rua da Palmeira e lá vais ouvir falar do Restaurante "Os Anarquistas" e das célebres "Quartadas"

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